quinta-feira, 18 de março de 2010

O Bhagavata Sua Filosofia e Ética




Por Sua Divina Graça Srila Bhaktivinoda Thakur

Amamos ler um livro que nunca lemos antes. Estamos ansiosos de reunir qualquer informação que ele contenha, e com tal ganho nossa curiosidade acaba. Esta modalidade de estudo prevalece entre um grande número de leitores que se consideram grandes personalidades em sua própria avaliação bem como daqueles que são de seu mesmo temperamento. O fato é que a maioria dos leitores são meros repositórios de fatos e declarações feitas por outras pessoas. Mas isso não é estudar. O estudante deve ler os fatos com vistas a criar, e não com o objetivo de uma retenção infrutífera. Estudantes, igual a satélites, deveriam refletir qualquer luz que recebem dos autores, e não aprisionar os fatos e pensamentos como juizes aprisionam condenados na prisão! O pensamento é progressivo. O pensamento do autor deve progredir no leitor na forma de correção ou desenvolvimento.

O melhor crítico é aquele que pode mostrar o desenvolvimento posterior de um velho pensamento; mas um mero denunciador é o inimigo do progresso e consequentemente da natureza. Progresso certamente é a lei da natureza, e devem haver correções e desenvolvimentos com o progresso do tempo. Mas progresso significa ir adiante ou se elevar mais alto. O crítico superficial e o leitor infrutífero são dois grandes inimigos do progresso. Devemos evitá-los. O verdadeiro crítico, por outro lado, nos aconselha a preservarmos o que já obtivemos, e ajustarmos nossa corrida daquele ponto a que chegamos no calor de nosso progresso. Ele jamais nos aconselhará a retornarmos ao ponto de partida, pois ele bem sabe que, nesse caso, haverá uma perda infrutífera de nosso tempo e labor valiosos. Ele dirigirá o ajuste do ângulo de nossa corrida para o ponto em que nos encontramos. Essa é também a característica do estudante útil. Ele lerá um autor antigo e descobrirá sua exata posição no progresso do pensamento. Ele jamais proporá queimar um livro com base em que contém pensamentos inúteis. Nenhum pensamento é inútil.

Pensamentos são meios pelos quais atingimos nossos objetivos. O leitor que denuncia um mau pensamento não sabe que uma estrada ruim é capaz de ser melhorada e convertida numa boa estrada. Um pensamento é uma estrada que leva a outro. Assim, o leitor descobrirá que um pensamento, que é objetivo hoje, será o meio para um objetivo posterior amanhã. Os pensamentos necessariamente continuarão a ser uma série infindável de meios e objetivos no progresso da humanidade.

Os grandes reformadores sempre afirmarão que não vieram para destruir a velha lei, mas para cumpri-la. Valmiki, Vyasa, Platão, Jesus, Maomé, Confúcio e Chaitanya Mahaprabhu afirmam o fato, seja expressamente ou por sua conduta. Contudo, nosso crítico pode de modo nobre nos dizer que um reformador como Vyasa, a menos que seja explicado de modo puro, pode liderar a milhares de homens a grandes problemas nos tempos vindouros. Mas caro crítico! Estude a história das eras e dos países! Onde você encontra que o filósofo e o reformador foram totalmente compreendidos pelas pessoas? A religião popular é a do medo de Deus, e não a do amor puro espiritual que Platão, Vyasa, Jesus, e Chaitanya ensinaram a seus respectivos povos! Seja que você apresenta a religião absoluta em figuras ou expressões simples, ou a ensina por meio de livros ou palestras, o ignorante e o descuidado devem degradá-la.

Em verdade, é muito fácil dizer e rápido de se ouvir que a Verdade Absoluta tem uma tal afinidade com a alma humana que chega diretamente, como se intuitivamente, e que não há necessidade de esforço de ensinar os preceitos da verdadeira religião, mas esta é uma idéia enganosa. Pode ser verdade no que se refere à ética e ao alfabeto da religião, mas não à mais elevada forma de fé, que exige uma alma exaltada para ser compreendida. Todas as verdades superiores, ainda que intuitivas, exigem uma educação preliminar nas mais simples.

A religião mais pura é a que nos dá a idéia mais pura de Deus. Como então é possível que os ignorantes jamais venham a obter a religião absoluta, enquanto permanecem ignorantes? Assim, não vamos escandalizar o Salvador de Jerusalém ou o Salvador de Nadia por esses males subsequentes. Nós precisamos de Luteros e não de críticos para correção desses males por meio da verdadeira interpretação dos preceitos originais.

Deus nos dá a verdade como Ele a deu a Vyasa, quando buscamos sinceramente por ela. A verdade é eterna e inexaurível. A alma recebe uma revelação quando anseia por ela. As almas dos grandes pensadores das eras passadas, que hoje vivem espiritualmente, muitas vezes se aproximam de nosso espírito inquiridor e o assessoram em seu desenvolvimento. Assim, Vyasa foi assessorado por Narada e Brahma.

Nossos shastras, ou em outras palavras, nossos livros de pensamentos, não contêm tudo que poderíamos obter do Pai infinito. Nenhum livro está livre de erros. A revelação de Deus é a Verdade Absoluta, mas é raramente recebida e preservada em sua pureza natural.

Fomos aconselhados no Srimad-Bhagavatam (11.14.3) a acreditar que a verdade, quando revelada, é absoluta, mas, com o passar do tempo, recebe uma coloração da natureza do recebedor e se converte em erro pelo cambio contínuo de mãos de era a era. Portanto, novas revelações são continuamente necessárias a fim de manter a verdade em sua pureza original.

Somos desse modo alertados a sermos cuidadosos em nossos estudos de autores antigos, por mais sábios e famosos que sejam. Aqui, temos a liberdade plena para rejeitar a idéia errada, que não é sancionada pela paz de consciência. Vyasa não estava satisfeito com o que coletou nos Vedas, ordenou nos Puranas, e compôs no Mahabharata. A paz de sua consciência não sancionava seus esforços. Disse a ele internamente: "Não, Vyasa! Você não pode repousar contente com o quadro errôneo da verdade que foi necessariamente apresentado a você pelos sábios dos dias de antanho! Você mesmo deve bater à porta do inexaurível repositório da verdade de onde os sábios anteriores obtiveram sua riqueza. Vá! Suba até a fonte da verdade, onde nenhum peregrino se encontra com o desapontamento de qualquer tipo. Vyasa o fez e obteve o que queria. Todos fomos aconselhados a fazê-lo.

Liberdade, então, é o princípio que devemos considerar como o presente mais valioso de Deus. Não devemos nos permitir de sermos liderados por aqueles que viveram e pensaram antes de nós. Devemos pensar por nós mesmos e tentar obter verdades novas, que ainda não foram descobertas. No Srimad-Bhagavatam (11.21.23), fomos aconselhados a aceitar o espírito do shastra, e não suas palavras. O Bhagavatam é portanto uma religião da liberdade, da verdade sem misturas, e do amor absoluto. A outra característica é o progresso. Liberdade é a mãe de todo progresso. A sagrada liberdade éa causa do progresso ascendente na eternidade e na atividade infindável do amor. A liberdade mal utilizada causa a degradação, e o Vaishnava sempre deve cuidadosamente utilizar este elevado e belo presente de Deus.

O espírito deste texto vai longe ao honrar os grandes reformadores e professores que viveram e viverão em outros países. O Vaishnava está pronto para honrar a todos os homens sem distinção de casta, pois eles estão repletos da energia de Deus. Vejam quão universal é a religião do Bhagavatam. Não se destina apenas a uma certa classe de hindus mas é um presente à humanidade em geral, não importa em que país nasceu nem em que sociedade cresceu.

Em resumo, Vaishnavismo é o amor absoluto que une todos os homens ao Deus infinito, incondicional e absoluto. Que a paz possa reinar para sempre em todo o universo no desenvolvimento contínuo de sua pureza e pelo empenho dos futuros heróis que, conforme a promessa do Bhagavatam, serão abençoados com poderes do Pai Onipotente, o Criador, Preservador e Aniquilador de todas as coisas no Céu e na Terra.

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Palestra em inglês, em 1869, em Dinajpur, Bengala Ocidental.

http://www.scsmathbrasil.com.br/obhagavata.html
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